Se você já viu uma coruja pequena parada em um poste ou sobre um monte de terra em terreno baldio, encarando quem passa com olhos amarelos enormes, provavelmente encontrou uma coruja-buraqueira. Ela é a coruja mais comum e mais visível do Brasil, e também a mais fora do padrão.
Enquanto a maioria das corujas se esconde em ocos de árvore e caça em silêncio total durante a madrugada, a buraqueira faz tocas no chão, é ativa ao amanhecer e ao anoitecer e não tem problema algum em ser vista. Ela se adaptou tão bem à paisagem modificada por humanos que hoje é frequente em canteiros de avenidas e campos de futebol.
Uma coruja que mora embaixo da terra
A coruja-buraqueira usa tocas abandonadas de tatus e outros animais, mas também escava as próprias galerias com as patas e o bico. O túnel pode ter de 1 a 3 metros de comprimento e termina em uma câmara onde a fêmea põe de 6 a 11 ovos.
Viver no subsolo traz vantagens térmicas importantes em ambientes abertos, onde não há sombra: dentro da toca, a temperatura varia muito menos do que na superfície. Em compensação, expõe a ninhada a cobras, gambás e cães, o que explica alguns comportamentos de defesa bastante criativos.
O chocalho falso e outras defesas
Filhotes ameaçados dentro da toca emitem um chiado ondulante que lembra muito o som de uma cascavel. O efeito sobre predadores é imediato — e o mais interessante é que o comportamento aparece mesmo em populações que convivem com cascavéis há pouquíssimo tempo.
Os adultos usam outra tática: ficam de frente para a ameaça, abaixam o corpo, esticam as pernas longas e balançam para os lados, aumentando o tamanho aparente. Se a ameaça se aproxima demais, decolam e sobrevoam o intruso mergulhando repetidamente.
- As pernas são desproporcionalmente longas para uma coruja, adaptação para correr e escavar.
- Elas conseguem girar a cabeça cerca de 270 graus graças a vértebras extras e artérias reforçadas.
- O disco facial concentra o som nos ouvidos, permitindo localizar presas apenas pela audição.
- As penas de voo têm bordas serrilhadas que quebram a turbulência e tornam o voo praticamente silencioso.
Esterco como isca de pesca
Um dos comportamentos mais estudados dessa espécie é a coleta de esterco de gado e outros detritos, espalhados na entrada da toca. A hipótese inicial era que o cheiro mascarasse o odor dos filhotes ou marcasse território.
Um experimento clássico publicado em 2004 mostrou outra coisa: corujas cujas tocas receberam esterco capturaram muito mais besouros do que as que tiveram o material removido. O esterco funciona como isca, atraindo insetos coprófagos direto para a porta de casa. É um dos poucos casos documentados de uso de isca por aves.
Vizinha das cidades
A buraqueira é uma das poucas espécies de rapina que se beneficiaram da expansão urbana e agrícola. Ela ocupa gramados de aeroportos, aterros, campi universitários, terrenos baldios e margens de rodovias, e sua dieta ajuda no controle natural de roedores e insetos.
Isso não significa que esteja segura. Terrenos são impermeabilizados, tocas são destruídas por obras e atropelamentos são frequentes, já que ela costuma caçar insetos atraídos pelos faróis. Onde a vegetação rasteira é mantida e as tocas são sinalizadas, a convivência funciona muito bem.
| Espécie | Tamanho | Onde faz ninho | Hábito |
|---|---|---|---|
| Coruja-buraqueira | 23 a 28 cm | Tocas no chão | Crepuscular e diurna |
| Suindara | 32 a 40 cm | Forros e torres | Noturna |
| Corujinha-do-mato | 20 a 24 cm | Ocos de árvore | Noturna |
| Jacurutu | 50 a 60 cm | Fendas de rocha | Noturna |
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12 curiosidades sobre coruja-buraqueira
Reunimos abaixo os fatos mais surpreendentes sobre a espécie, todos checados em fontes científicas e de instituições de conservação.
- É a única coruja brasileira que faz ninho dentro de buracos no chão.
- Ela escava as próprias tocas com patas e bico, além de reaproveitar tocas de tatu.
- Filhotes ameaçados imitam o chiado de uma cascavel para afastar predadores.
- Adultos espalham esterco na entrada da toca para atrair besouros — uma forma de isca.
- As pernas longas permitem correr atrás de insetos no chão.
- Ela gira a cabeça cerca de 270 graus sem interromper o fluxo de sangue ao cérebro.
- As penas com bordas serrilhadas tornam o voo quase inaudível.
- Diferente da maioria das corujas, é ativa também durante o dia.
- Uma postura pode ter até 11 ovos, número alto para uma ave de rapina.
- Ela regurgita pelotas com ossos e carapaças, que pesquisadores usam para estudar sua dieta.
- É comum em aeroportos, campos de futebol e canteiros de avenidas.
- Os olhos não se movem nas órbitas: para olhar para o lado, a ave precisa virar a cabeça inteira.
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